terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Alguém para amar


Ganhei de presente de uma grande amiga, no meu último aniversário, um livro chamado Projeto Quatro Homens, de Cindy Lu. Achei o título instigante e, de acordo com minha amiga, ele me foi presenteado no lugar de um livro sobre concursos públicos para que eu variasse um pouco as minhas leituras. Por que não dar uma chance a ele? Afinal de contas, não faria mal a alguém que já está solteira há um tempinho, não é?

Apesar do tom cômico, o Projeto Quatro Homens tem algumas teses interessantes: uma delas é a de que a mulher que o está lendo deve aceitar a ideia de que é péssima no amor para, a partir daí, ter outros tipos de comportamento na área afetiva. Outra é a de que os homens com quem se sai (até quatro, como diz o título) serão categorizados até que se ache o “Homem Três e Meio” – “Quatro”, não, porque, de acordo com a autora, “nenhum homem pode suprir todas as suas necessidades” (sábias palavras). Ela também menciona que, quando os homens sabem que há outros caras na jogada, esforçam-se mais no jogo da conquista devido ao instinto caçador masculino e, assim, os resultados do plano tornam-se muito promissores.

O que o livro trouxe de bom para mim foi uma espécie de reabertura para esse lado tão importante da vida. Ficar sempre focada em estudar para concursos e, assim, entrar na carreira pública, embora seja o que quero para minha vida, foi uma espécie de refúgio. Explico: para aqueles que não sabem, este blog surgiu após eu ter sofrido uma grande desilusão amorosa, que me deixou completamente desnorteada. Porém, passada a fase do choro e ranger de dentes, a gente se dá conta de que é imperativo se reconstruir. Estar no fundo do poço faz o medo ir embora, pois dali não se pode mais cair e há a solidez necessária para refazer a vida mais uma vez, apesar de parecer que ela terminou. Confesso que o estudo foi uma forma de me catapultar de lá. Eu o via como um controle de situação, pois era algo que só dependia de mim e de mais ninguém.

Realmente funcionou: o tempo foi passando e eu fui verificando os ótimos resultados de investir em mim mesma. A dor foi embora e chegou um dia em que eu senti vontade de “voltar ao mercado”. O recomeço foi meio estranho, confesso, e me trouxe algumas pequenas desilusões. Mas, como nada chegou nem perto do que vivi antes, foi tranquilo superar. Além do mais, após viver algo tão devastador, tive a impressão que criei uma espécie de proteção, que espero que fique comigo pelo resto da vida. Foram muitas as lições aprendidas, dentre as quais a de que não podemos colocar sobre os ombros de ninguém a responsabilidade da nossa própria felicidade, que a outra pessoa não pode, jamais, ser a nossa vida (deve, sim, complementá-la), que intimidade demais atrapalha, que ser muito previsível é fatal para o amor... Enfim, eu poderia ficar o dia inteiro listando esses aprendizados.

Tão fofo, porém, tão distante da realidade...
O fato é que reaprendi a viver só e vi que isso é algo muito bom. Mas por mais que eu tenha me reinventado e veja todas as vantagens da vida de solteira (e existem muuuitas!), há momentos em que sinto falta de ter alguém que amo de verdade ao meu lado. O solo que danço há tempos nem sempre tem graça. É muito bom estar com uma pessoa que nos encante, que se ilumine só de nos olhar, que ria conosco, que compartilhe projetos de vida e nos inclua neles. Em suma, que traga mais entusiasmo ao nosso cotidiano. Por que é tão difícil achar esse certo alguém? Sei que esses questionamentos são feitos por homens e mulheres e tenho a impressão de que essa busca é um tipo de loteria. Certo, vamos pensar que “tudo vem na hora certa” e blá, blá, blá... E se nada acontecer, o que fazer?

Seguir em frente, claro, sempre se divertindo! Dia desses, assisti a uma entrevista da escritora J.K. Rowling, no The Oprah Winfrey Show, na qual ela falou que as solteiras não devem perder as esperanças, pois ela demorou sete anos para achar o homem ideal, com quem já está casada há nove. Disse que o conheceu uma semana após conversar com uma amiga sobre o que ela esperava encontrar em alguém. Ao dizer coisas como “gostaria que ele fosse inteligente, que tivesse a sua própria carreira, que fosse um homem íntegro, bom e que se conhecesse bem” – requisitos básicos para ela –, ouviu da amiga que “estava pedindo demais”. Bem, pelo visto, não estava...

Desejo que 2011 lhes traga grandes realizações em todas as áreas da vida, especialmente nos assuntos do coração. Afinal, quando se ama, a gente encara o mundo.


domingo, 21 de novembro de 2010

A morte que vive em nós


No último dia 29 de outubro, fez cinco anos que o meu pai faleceu. Ele era uma daquelas pessoas doces, que todos gostam de ter por perto. Torcia muito por mim, amparava-me e sentia orgulho em ser meu pai, de acordo com as palavras dele ditas a mim em muitas ocasiões. Três dias depois, faleceu a mãe de uma amigona do coração. Esse triste evento abalou toda a família dela e a mim também. É triste ver alguém que era tão guerreira e apaixonada por tudo o que fazia ir embora. Por último, três dias depois (sim, isso mesmo), uma tia-avó minha, que eu acabara de visitar, faleceu também. Ela teve um papel essencial na minha alfabetização, pois era professora e me estimulava bastante quando eu era bem pequena, antes de entrar na escola. É, o começo de novembro foi difícil para mim, afinal, lidar com a morte abala qualquer um.

Pois bem, esse é o aspecto mais evidente da morte. O que acontece o tempo todo e que por diversas vezes não enxergamos é aquela que está presente em tudo o que nos cerca e, principalmente, dentro nós. Tem algo que acho bem curioso: ficar sem ir a uma cidade por um bom tempo. Basta visitar novamente esse lugar e verificar que a paisagem sofreu alterações. É muito comum que certos estabelecimentos comerciais bem tradicionais já não existam mais, pois deram lugar a outros com finalidades distintas. Assim, o tempo vai passando, as estações vão mudando e, sem nos darmos conta, já não somos mais quem éramos há um ano, que dirá há cinco ou dez anos. Vejam só, a nossa paisagem também se alterou: nossos gostos se modificaram, trocamos de endereço e, quando olhamos para trás, verificamos que toda a nossa vida está diferente. A morte que marca finais de ciclos pode ser bem sutil ou vir acompanhada de acontecimentos marcantes. Pode ser o dia que termina e o semestre de meio de curso que chega ao fim ou o ano que se encerra – gerando muitas expectativas em grande parte das pessoas – e o final do último semestre da faculdade, culminando com uma mudança drástica de vida.

Mudança: esta é a palavra-chave quando se fala em morte. Tudo o que é novo costuma nos desestabilizar. A desestabilização, por sua vez, gera o caos, para que depois tudo vá para o seu devido lugar. No entanto, o simples fato de vislumbrarmos a possibilidade de algum tipo de mudança gera medo em nós. É claro que, quando a mudança é positiva, parece que encaramos tudo com mais boa vontade, mas quando ela nos traz algum tipo de desconforto tendemos a evitá-la (situação que ocorre até mesmo nas ditas mudanças “positivas”, vide o caso clássico do sujeito que ganha na Mega Sena e tem que se refugiar do mundo por medo de ser sequestrado e morto). No instante em que o nosso mundo particular atinge um determinado equilíbrio, tentamos mantê-lo a todo custo e de modo ingênuo, até que tudo começa a desabar. Nessa hora, temos duas escolhas: juntar os pedacinhos ou ficar estagnados. Certamente que tudo leva tempo: o processo de se reerguer após um revés na vida pode demorar e não é linear. Com frequência achamos que já estamos recuperados de um baque para, logo em seguida, verificarmos que ainda falta percorrer bastante chão. O problema é quando nos recusamos a mudar o panorama, ou seja, quando não nos conformamos com determinada mudança-morte.





O lado bom, embora possa demorar a ser percebido, é o espaço que se abre para outras experiências ao deixarmos que certas fases morram. Ganhamos uma oportunidade valiosa para conhecer facetas da nossa própria personalidade que estavam inertes, podemos mudar nossos conceitos, amadurecer e, por que não, fazer as coisas acontecerem, todas aquelas que não passavam de rascunho. Nesse sentido, a perda pode ser libertadora. Logo, não compreendo por que temos a ilusão de que as coisas precisam ser eternas e por que não aceitamos que a finitude possa vir para o melhor.

Sim, é triste ver planos sendo desfeitos e, sim, dói ver entes queridos partindo, tanto os que literalmente morrem quanto aqueles que morrem em vida (e, nesse caso, temos que aprender a lidar com os seus fantasmas). No fim das contas, acho que o grande desafio em relação a qualquer tipo de morte é suportar a ausência daquilo ou daquele(a) que não mais está conosco. É aí que entra em cena o tempo, curando as feridas e nos ensinando não a esquecer, mas sim a superar e a transformar a dor em serenidade. Superar e transformar: passos essenciais para enfrentar um caminho repleto de mortes chamado vida.

domingo, 7 de novembro de 2010

Momento Propaganda – Vestidinhos Fofos

É com grande alegria que compartilho com vocês o empreendimento da minha querida amiga Maria Chagas. Ela acabou de lançar uma grife chamada Vestidinhos Fofos (www.vestidinhosfofos.com.br). Os vestidos são maravilhosos! Tomo a liberdade de colocar aqui um trecho do texto que aparece no site, que explica o conceito da empresa:

"Vestidinhos Fofos é uma grife romântica-retrô, ingenuamente prática e sofisticadamente simples, inspirada na feminilidade dos fifties & sixties. Afinal, a gente sabe que as tendências sempre se renovam, mas ser mulher nunca sai de moda".


Na foto abaixo, estou usando uma das criações da Maria:




 
Convido vocês a conhecerem melhor o trabalho dessa minha amiga tão criativa e fofíssima! Vale a pena! ;-)

Um beijo!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Brasil: um País de alguns


Há duas semanas, vários bairros de Porto Alegre foram assolados por uma falta de água que parecia interminável. Moro no Bom Fim, e ali – pelo menos em meu prédio – a escassez perdurou por mais de uma noite. Apesar de agora já estar tudo normalizado, lembro-me do transtorno infernal que foi ter de ficar sem água por horas a fio. Fazia muito tempo que eu não enfrentava situação tão desagradável quanto essa. Senti imensa alegria quando a distribuição voltou ao normal, foi um alívio indescritível.

Algo aparentemente tão singelo quanto ficar sem água por algumas horas fez com que eu imaginasse a vida de quem enfrenta esse transtorno diariamente e acaba tendo que se acostumar com esse tipo de situação como se fosse algo normal. Todo mundo sabe que tal quadro, infelizmente, acontece em várias partes do mundo, em especial nas regiões mais pobres. No entanto, o que me deixa apavorada é ter a ciência de que o não acesso à água e a tantos outros recursos básicos e essenciais de subsistência ocorrem com inúmeros brasileiros do Oiapoque ao Chuí. O abismo que existe entre nós – eu, que publiquei este texto em meu blog, e você, que o está lendo – e a maior parte da população do Brasil é assombroso. O que me deixa ainda mais apavorada é que tudo isso que estou abordando virou uma espécie de lugar comum; por não ser mais novidade, parece que não choca tanto as pessoas. Céus, o que está acontecendo com este País? Por que ele ainda é um País “de alguns” e não “de todos”?

Nessas horas, fico pensando se o progresso para valer, e não aquele para inglês ver, é realmente uma meta dos governantes. Afinal de contas, pode ser que “progresso” signifique o fim de uma série de regalias para muitos políticos nesse Brasil afora (que fique claro que estou me referindo àqueles políticos que desvirtuam o ofício, pois quero acreditar que existem aqueles que são idôneos). Quem sabe seja mais cômodo apenas ficar agradando às massas com migalhas, de modo que elas fiquem cegas à real dimensão dos problemas e acabem achando que, no fundo, está tudo bem. Esse círculo vicioso fez com que grande parte dos cidadãos se desiludisse com as promessas vazias realizadas nas épocas de caça aos votos. Provavelmente, é por isso que a nação está sendo assolada por tamanho desencanto em plena época de processo eleitoral. Estamos cansados de ser feitos de bobos, e os Tiriricas da vida não ajudam em nada a mudar a imagem da política brasileira.



A grande questão é: o que deve ser feito? Como transformar esse limão azedo que chupamos há tanto tempo em uma doce limonada? Talvez o primeiro passo seja votar em candidatos(as) que apresentem ideias com que realmente compactuamos, sem ficar com aquela neurose a respeito da posição que eles ou elas ocupam nas pesquisas. Não acho que seja um bom critério votar apenas em quem tem maiores chances de ganhar, achando que é um desperdício escolher alguém que, por mais que acreditemos nas propostas, parece ser um(a) concorrente inexpressivo(a) nos índices de intenções de votos. O segundo passo é cobrar de quem votaremos, neste três de outubro, o cumprimento de seus planos de governo, informar-nos, nos meios de divulgação oficiais, sobre o que têm feito e repreendê-los ou elogiá-los de acordo com suas atuações.

Bem, em linhas gerais, já foram realizados muitos progressos aqui, tanto no processo eleitoral quanto nas condições de vida de todos nós. Temos que reconhecer as melhorias realizadas até então, mas não podemos deixar de lado tudo que ainda precisa ser feito, pois ainda estamos bem longe do ideal. Logo, para que o País prospere, não enxergo outro caminho a não ser uma fiscalização mais atuante por parte de cada um de nós em relação àqueles e àquelas que estarão em breve no poder. Para isso, temos que dar um basta nessa letargia generalizada. Temos, urgentemente, que voltar a acreditar no Brasil.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ah, a irritação...


Sem sombra de dúvidas, há momentos em que é praticamente impossível não se irritar. Até os indivíduos mais pacatos, vez ou outra, rendem-se a esse sentimento perturbador. O programa “Irritando Fernanda Young”, do GNT, tem um quadro em que é feita uma votação com os internautas acerca de um determinado evento (uma blitz que tranca todo o trânsito, por exemplo). A partir daí, as pessoas dizem se aquilo as irrita “paca”, “pouco” ou “picas”. Todas as vezes em que eu assisti a essa parte (e já devem ter sido, pelo menos, umas cinco ou seis vezes), sempre o “paca” foi o vencedor disparado.


"Tá bom, mas não se irrite!"

Isso é, no mínimo, curioso: estariam as pessoas sendo apenas engraçadinhas na enquete ou elas realmente ficam no limite da irritação em qualquer tipo de encrenca do cotidiano? Caso a resposta seja a segunda opção, algo de errado está acontecendo por aí. Afinal, por que a irritação no grau máximo está se disseminando? Será que o mundo moderno é o culpado? Pode ser. Talvez as facilidades e a rapidez proporcionadas em tudo hoje em dia tenham nos tornado mais intolerantes e impacientes. Então, basta algo sair fora dos trilhos para que tudo desande.

Bem, situações que podem levar à loucura qualquer um de nós é o que não faltam. Mesmo assim, criei um rol com os sete eventos do dia a dia que, segundo a minha percepção, são os mais irritantes:

    1. Coisas que estragam
    Pensem no que quiserem: carro, computador, televisão, micro-ondas, elevador (citei tudo isso porque já vivi situações nada agradáveis envolvendo os ditos cujos)... E, é claro, resolvem estragar quando mais precisamos deles. É a Lei de Murphy dando o ar da graça (ou, se preferirem, Lady Murpy, a versão feminina)...
      
    2. Coisas perdidas (ou que não conseguimos encontrar)
    No meu caso, aplicam-se a essa categoria, basicamente, roupas e objetos de estudo (livros, cadernos, folhas, estojo...). Por isso, qualquer mudança de lugar desses itens deve ser feita de modo extremamente cuidadoso; caso contrário, na pressa, corro o risco de não encontrá-los. Puxa vida, é angustiante verificar que tudo está no seu devido lugar, exceto aquilo que estamos procurando e de que precisamos muito. Dói...    
    "Tem um minutinho?"
    3. Interrupções
    Você está desenvolvendo uma linha de raciocínio, aí, o seu telefone toca ou chega alguém e interrompe a conversa. Você está assistindo a um baita filme e, de repente, falta luz. A companhia elétrica avisa que todo o bairro (e apenas o seu) está comprometido, sendo que a previsão de retorno da luz é somente daqui a algumas horas...          
    4. Telemarketing
    Um clássico. Poxa, se estamos interessados em algum tipo de serviço, nós mesmos contatamos a empresa, certo? De onde saiu a ideia de que receber uma oferta não solicitada por telefone vai despertar magicamente o nosso interesse? Na verdade, o efeito é o contrário...          
         5. Engolir sapos
    Relevar, relevar, relevar: às vezes, é fundamental. Porém, quando se age sempre assim, chega uma hora em que o copo transborda...
    6. “Houston, temos um problema...”
    Existe algo mais irritante do que as coisas não saírem conforme o planejado? Quando o resultado é para melhor, ótimo. Mas quando é para pior... Exemplos: você está planejando ir a uma grande festa, mas adoece. Quer viajar para a praia, mas cai A tempestade no final de semana. Inteirinho. Pensa que está abafando com alguém, mas recebe um fora fenomenal e por aí vai...
    7. Trânsito
    Dispensa comentários, ainda mais nas grandes cidades...









Todas essas situações, especialmente quando somadas, são tiro e queda para despertar a irritação. Por já ter trabalhado com atendimento ao público, notei que o comportamento humano, nessa esfera, funciona mais ou menos assim: quando as pessoas estão sob um estresse violento, elas se dão ao direito de extravasar toda a raiva acumulada, não importa onde estejam e com quem estejam lidando naquela hora.

Infelizmente, reconheço que já agi assim – e, em geral, direcionando a fúria aos mais chegados – e não me orgulho nem um pouquinho disso. No entanto, essas situações-limite foram particularmente válidas para que eu começasse a me questionar sobre o porquê de ter agido daquela forma e sobre o que eu poderia fazer para evitar que a irritação ficasse acumulada, sem uma válvula de escape. E foi assim que comecei a dar mais atenção a tudo aquilo que é realmente significativo para mim, como cantar, dançar, tocar violão, sair com os amigos e rir mais. Ah, e minimizar situações estressantes também foi de grande ajuda (se bem que não temos controle de muita coisa nessa vida, mas, enfim... Não custa nada tentar).

Rodar a baiana é muito constrangedor; porém, passar por esse tipo de vexame talvez possa ser útil como uma maneira de se conhecer melhor, de modo a identificar quais são as circunstâncias que desengatilham a irritação. Com o tempo, vai ficando mais fácil colocar em prática métodos para controlar aquela onda que vai subindo, subindo, subindo e deixando os nossos rostos fervendo, fervendo, fervendo...

sábado, 24 de julho de 2010

Realizando sonhos


Após um tempo de ausência, retorno ao “Limonada Diária”. Meu afastamento aconteceu por causa da preparação para um concurso público. Além das minhas atribuições já mencionadas, também sou concurseira. Como tudo na vida, essa é uma jornada difícil, que demanda muita dedicação e toneladas de paciência. Devo dizer que o início dessa preparação é que foi mais complicado, afinal, entrei em contato com matérias completamente estranhas para mim, como Direito Administrativo e Constitucional. O lado bom é que acabei ficando fascinada por uma área que, a princípio, eu “torcia o nariz” sem ao menos conhecer. Incrível como sempre descobrimos coisas novas a respeito de nós mesmos.
A rotina de estudos é marcada por altos e baixos: têm dias em que me sinto triste e cansada, enquanto, em outros, estou mais entusiasmada e consigo visualizar minhas conquistas, tanto na aquisição de conhecimento e de agilidade para fazer uma prova quanto na melhora de classificação nos certames. Os degraus que vou subindo são um grande estímulo para não desanimar. É como o famoso mantra que os concurseiros de carteirinha sempre repetem: “estuda-se não PARA passar, mas ATÉ passar”. Já constatei isso através de pessoas próximas a mim, que me relataram suas jornadas – incluindo as desilusões inerentes a elas – para conquistar a tão sonhada vaga no cargo desejado. Todas são unânimes em dizer que, depois que chegaram onde queriam, fariam tudo de novo, pois a nova vida que lhes foi disponibilizada vale qualquer sacrifício.
É por tudo isso que tenho focado tanto em me tornar servidora pública. Afinal, não é novidade que, no Brasil, a iniciativa privada é altamente instável, sujeita a crises financeiras e aos mais variados percalços, que colocam em risco o emprego de qualquer um. Isso sem falar na diferença de remuneração, muito aquém da que é paga os servidores públicos. Além de oferecer vantagens pecuniárias, o serviço público também proporciona um nível de estabilidade e de segurança inexistente no regime celetista.
Todas as possibilidades oferecidas em um cargo de estatutária é que me fazem investir meu dinheiro em cursos preparatórios e abrir mão dos finais de semanas, das noites e dos períodos em que eu poderia estar me divertindo. Afinal, eu sei que, posteriormente, vou poder me dedicar a outros projetos que são de extrema importância para mim, embora estejam suspensos no momento. Nesse rol, incluo a música, que é o meu combustível para viver. Assim, optei por lutar pela estabilidade profissional para depois realizar os meus sonhos. Em certas horas, confesso que me questiono se essa é a escolha mais adequada para atingir os meus objetivos. Acho que, de vez em quando, todo mundo também deve se questionar se está fazendo o que precisa para conquistar alguma coisa...
Então, começo a me lembrar das histórias bem-sucedidas de quem também foi atrás de um sonho e que o realizou através do mesmo caminho estou trilhando. Penso sempre na minha motivação, que é o meu norte nessa estrada por vezes escura e cheia de curvas fechadas. Penso em como deve ser bom dedicar a vida integralmente a uma atividade que se ama verdadeiramente, porque a vida é muito curta para ser desperdiçada com atividades meramente de sobrevivência. Acho estimulante pensar que devemos ser grandes e que a nossa voz deve ser ouvida. Assim, nossos dias serão preenchidos com a sensação recompensadora de que estamos, de fato, onde devemos estar.
E vocês: o que fariam para realizar um sonho?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O fingimento nosso de cada dia


Estar de férias é uma excelente oportunidade para fazer algo delicioso: assistir filmes durante a madrugada. Recentemente, assisti pela enésima vez um que simplesmente adoro: Beleza Americana (American Beauty, 1999, direção de Sam Mendes). Esse premiado filme retrata com maestria a vida de uma família americana de classe média que, para quem vê de fora, é extremamente normal. Aos poucos é que vamos descobrindo os conflitos de cada um de seus membros, em especial os de Lester Burnham, interpretado por Kevin Spacey. Ao conhecer a amiga da filha adolescente, sua derrocada se inicia. Não significa que tudo estivesse bem antes, muito pelo contrário. Na verdade, a atração que ele começa a sentir é um mero gatilho para que viesse à tona tudo o que estava submerso.
Existem vários diálogos memoráveis. Em um deles, Lester diz a um vizinho que a família dele não é normal, que todos apenas fingem ser um retrato de normalidade em prol das boas aparências. Tem uma cena em que a esposa dele, Carolyn (Annette Bening), pede a Lester, quando chegam a uma festa do trabalho dela, para que finja ser um bom marido. Assim, ela vai conseguir passar uma imagem de profissional bem-sucedida. É fingimento atrás de fingimento, máscaras sendo usadas a torto e a direito. Mais real, impossível.















Vocês imaginam que essa bela família está longe de ser "normal"?

Sempre varremos o pó para debaixo do tapete como uma forma de nos preservar e de conseguir sobreviver nesse mundo tão complicado. Assim como no filme, queremos sempre aparentar que estamos longe de ser desajustados, afinal de contas, desajustados são mal vistos, ninguém quer andar com eles. Então, acabamos adotando como nosso estilo de vida um padrão do que é considerado correto pelo senso comum.
É impressionante como estamos sempre cercados por esses modelos. Existe uma cobrança que nos chega através dos seguintes questionamentos: “quando você vai perder uns quilinhos?”; “quando é que você vai conseguir um trabalho que pague melhor?”; “quando vai arranjar um(a) namorado(a)?”; “quando vai casar?”; “quando vai ter filhos?” etc. etc. etc. E ai de nós se não nos adequarmos rapidinho ao que nos é solicitado. O mais incrível é que, na maioria das vezes, somos bombardeados com tudo isso sem ao menos termos pedido a opinião de alguém. Imagino como seria se pedíssemos...
Acho sensacional quando o personagem de Kevin Spacey liga o “foda-se” e começa a subverter toda a sua vida. Manda tudo e todos para aquele lugar e decide que não tem mais nada a perder. Na vida real, ações parecidas, caso não sejam muito bem estudadas, podem gerar danos irreparáveis. No entanto, acredito que seja possível acionarmos mais vezes esse botão no que diz respeito ao que desejamos verdadeiramente para nossa vida. Uma música que retrata bem isso é Solução, de Ed Motta, em especial os versos “viva a vida como quer viver/seja livre como Deus quiser” e “sua vida não pertence a ninguém/tente tudo para ser feliz”.



Essa música diz tudo: “os outros são os outros e nada mais”

É muito trabalhoso colocar tudo isso em prática, mas não custa tentar. Ora bolas, é muito exaustivo fingir. Estamos fingindo felicidade? Pra quê? Não é mais vantajoso lutarmos para sermos felizes de verdade?
É por tudo isso que Beleza Americana é um daqueles filmes que, em minha opinião, a gente não se cansa de assistir justamente por tratar de questões inerentes à vida de qualquer um. Há outro personagem chamado Ricky (Wes Bentley), vizinho traficante de Lester, que diz em uma cena que “há tanta beleza nesse mundo que quase não consegue suportar”. Fico preocupada com o fato de que estamos desatentos a essa beleza porque queremos nos encaixar em padrões que podem não nos satisfazer e nos afastar do que mais desejamos. Será que nossas máscaras estão dificultando nossa visão para o que há de mais belo na vida?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Medo de Errar


Aqui em Porto Alegre, tem um lugar chamado “Boteco do Natalício”. Esse local é famoso por ter quadros engraçadinhos, que lembram os famosos ditados de para-choques de caminhões. Um deles diz o seguinte: “herrar é umano”. De fato, não há nada mais humano que errar, porque é errando que aprendemos a fazer o que é certo. Por isso, acho a cobrança excessiva pela perfeição um enorme contra-senso.
Lembro-me de situações, nas minhas aulas de inglês, em que certos alunos ficavam relutantes em formular frases ou em expressar opiniões com medo de que pudessem cometer erros. Sempre tentei (e ainda tento) encorajá-los a não ficarem se monitorando exageradamente, visto que o aprendizado não acontece dessa forma. É preferível ouvir o que eles têm a dizer, mesmo que ocorram erros gramaticais, a não ter acesso ao que eles pensam. Nessas horas, demonstrar que estão em terreno seguro e que confio neles é importantíssimo. Sempre tive a crença de que corrigir erros pode ser um processo conduzido aos poucos, sem traumas, sem dores, sem cobranças demasiadas e em um clima amigável.
Quando erramos, significa que tivemos coragem de ultrapassar a barreira que nos impedia de fazer alguma coisa. E, é claro, damos nossa cara a tapa. O mundo evolui em função daqueles que são corajosos o suficiente para não ficarem na inércia do apego ao que já está garantido e comprovadamente certo, terreno muito mais confortável.
A perseguição pela perfeição, creio, deve ter origem na nossa mais tenra idade, quando começávamos a nos dar conta de que, quando acertávamos, éramos recompensados e, quando errávamos, éramos punidos. Tirávamos dez na prova e ganhávamos um presente ou um elogio; éramos desobedientes e éramos colocados de castigo. Portanto, parece-me que a cobrança em acertar a todo custo acaba vindo de nós mesmos e se estende aos que convivem conosco.
Eu acredito que temos que fazer o que é certo, seja no trabalho, seja na nossa vida pessoal. O problema reside em querermos acertar sempre. Quem consegue tamanha proeza? Estamos, a todo instante, querendo ser exemplares: amigos exemplares, funcionários exemplares, namorados exemplares, filhos exemplares e o que mais vocês imaginarem. Bem, chega um ponto em que cometemos um deslize, afinal, não somos robôs.
Além do mais, quem foi que disse que o perfeito é melhor que o imperfeito? Tenho certeza de que todos nós já vivemos grandes momentos, realmente marcantes, e nem estávamos tão bem arrumados assim naquela ocasião. É bem comum até que o dia nem estivesse tão bonito. Ao passo que, às vezes, tentamos planejar tanto um evento para que ele seja perfeito que, no fim das contas, tudo acaba ficando plastificado demais e humano de menos.
Pode ser que o grande medo de errar resida no medo de sermos julgados. Ora, quando erramos, o outro está tendo contato somente com uma parcela nossa, mas nós somos muito maiores do que um erro. É por causa disso que julgar é muito perigoso. Se não quisermos ser julgados, não mais julguemos. Se quisermos perder o medo de errar, comecemos por aí. Ah, e não nos esqueçamos do bom humor, indispensável na superação das “pisadas de bola” que damos pela vida afora.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Amor Condicional



Ouve-se muito a respeito do tal de amor incondicional. No entanto, o que mais encontramos nesse mundo está bem longe disso: trata-se do amor condicional. Quando penso nesse assunto, lembro-me de uma frase do economista Milton Friedman (1912-2006): “there is no such thing as a free lunch” (em português, “não existe almoço grátis”). Isso significa que para tudo existe um preço, ou seja, nada é de graça.

Aplicando o conteúdo dessas palavras em diversas esferas da vida, é mais ou menos como se tivéssemos que sempre dar algo em troca às pessoas que nos cercam para conseguirmos a aprovação e a estima delas. Exemplos não faltam: o sujeito só ajuda o colega a fazer o relatório porque esse colega vai quebrar um galho para ele posteriormente; a menininha só empresta a caixa de lápis de cor para a coleguinha porque ela costuma dividir a merenda; o namorado só faz massagem na namorada porque ela prepara o prato preferido dele. Isso não tem fim.

Comportamentos tão corriqueiros como esses acabam sendo praticados em áreas mais subjetivas. Logo, parece que sentimentos profundos só brotam em nós quando, de alguma maneira, vislumbramos obter uma vantagem em demonstrá-los a alguém. Será que o amor virou uma espécie de moeda na transação de “serviços”? Sim, porque esse tipo amor apenas finge ser incondicional; quando a máscara dele cai, vimos todas as cláusulas que o norteiam. Tenho a sensação de que o amor verdadeiro, aquele realmente incondicional, livre de contratos, é artigo de luxo.

Na jornada em busca de algo verdadeiro, é inevitável que a ilusão cruze o nosso caminho. Aí, esbarramos no amor condicional, o qual possui muitos disfarces. Quase no final do filme “Closer – Perto Demais”, há um diálogo entre Dan (Jude Law) e Alice (Natalie Portman) que acho emblemático. Após terem um sério desentendimento, ele fala a clássica frase “eu te amo”. Eis a resposta dela: 

Onde? Me mostre. Onde está esse amor?
Eu... Eu não consigo vê-lo.
Tocá-lo.
Senti-lo.
Consigo ouvir algumas palavras.
Mas não posso fazer nada com suas palavras fáceis.
 
Mais uma amostra de como o amor contratual é extremamente instável: há demasiada cobrança e fragilidade, e, ao menor sinal de encrenca no horizonte, a tendência é de que as pessoas “se mandem” e não fiquem para tentar apagar o incêndio. Há um provérbio chinês que diz mais ou menos assim: “ame-me quando eu menos merecer, pois é quando eu vou mais precisar”. Quem realmente prega isso? Afinal, é muito fácil “amar” quando tudo está bem e a pobreza e a doença estão a quilômetros de distância. Talvez o exemplo de amor que chegue mais próximo do incondicional é aquele que uma mãe ou um pai sente pelos filhos. E, ainda assim, infelizmente, também não faltam relatos sobre o desvirtuamento que o amor sofre nesse tipo de relação.

Tem algo de errado nessa história toda. Será que amamos certo? Porque não é possível haver tanta desilusão em nossas interações. Amor não deveria ser sinônimo de dor (peço desculpas pela rima). Então, como acabar com o descaminho que um sentimento tão nobre acaba sofrendo? Bem, o caminho é complicado: acredito que seja amar sem esperar nada em troca. Mas como se faz isso? Dúvida cruel...

Crescemos, passamos por diversas experiências, levamos puxadas de tapete e percebemos que só podemos realmente contar conosco (com raríssimas exceções, raríssimas mesmo). Aprendemos a duras penas que é uma grande cilada colocar nossa necessidade de nos sentirmos amados nas mãos de outras pessoas. Afinal, elas entram e saem de cena o tempo todo no palco das nossas histórias.

Assim, chegamos ao terreno do amor próprio. Para mim, esse é o amor que não poderia, em hipótese alguma, ser condicional. Não podemos permitir que o amor que dirigimos a nós mesmos só aconteça se acharmos que somos dignos de merecê-lo. Devemos nos amar independente de qualquer coisa porque nós somos tudo o que temos. É por isso que devemos encontrar maneiras de alimentar verdadeiramente esse bem querer. Dessa forma, amar os outros sem esperar nada em troca pode ser algo viável. Quem sabe agindo assim possamos encontrar o caminho para a felicidade genuína.

No fim das contas, para rompermos o círculo vicioso que suja tanto a imagem do amor – pois o que mais vemos por aí são meros disfarces de amor – temos que encarar o desafio de nos aceitarmos de peito aberto. Creio que essa é a chave para que consigamos amar certo, ou menos errado, pelo menos. Colocar contra a parede a máxima de que “não existe almoço grátis” está em nossas mãos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Vou dizer o que eu estou pensando...

Dia desses, ao zapear, assisti à campanha publicitária do Fiat Doblò. Para quem não conhece a propaganda, segue abaixo o vídeo do You Tube:




Claro, o objetivo da Fiat é mostrar as vantagens daquele carro. No entanto, achei muito infeliz e exagerado o modo como isso foi demonstrado. Parece que não bastam os estereótipos que permeiam todos os cantos deste planeta. Não, sempre é necessário reforçá-los mais um pouco. Ali, vimos o motorista, acatando todas as decisões da mulher dele, uma chata de galocha. No final, o homem dá o seu grito de independência, dizendo a ela o que ele estava pensando e tacitamente dando um tchauzinho para a esposa, pois, no lugar da dita cuja, aparecem meninas e rapazes animados no belo e espaçoso Doblò...

Por mais que tenha sido um simples comercial de 46 segundos, acho muito ruim a valorização de caricaturas. Sei que a Fiat optou por fazer a divulgação do carro através do humor, mas é brincando que se dizem certas verdades. Indo mais a fundo, tem-se a impressão de que a mulher que aparece ali representa o que todas as outras são: pessoas consumistas, dominadoras, insatisfeitas e que não sabem se divertir. E mais: por que é o homem quem está dirigindo? Temos ali outro estereótipo: o de que é o macho quem guia sua fêmea sem senso de direção (e sem noção). E, ainda por cima, ele é o coitadinho que deve se submeter às vontades femininas e que, em certo ponto, não consegue mais ser paciente e dá um basta na situação, libertando-se de suas penosas atribuições matrimoniais. Pode ser que eu esteja sendo séria demais na análise de algo tão banal, mas foi isso que senti na breve duração dessa propaganda.




Não significa que aquela situação – uma esposa dominadora e um marido submisso – não ocorra na vida real, mas aquele modelo não é, nem de longe, o único. Existe uma grande diversidade de papéis desempenhados nesse sentido, e focar em apenas um deles, logo um que parece tão ultrapassado, é, a meu ver, muito nocivo para o desenvolvimento da nossa sociedade, já tão cheia de preconceitos contra a mulher. É lógico que a situação feminina atual é muito mais favorável em comparação ao que as mulheres de épocas longínquas tinham que enfrentar. Isso não é novidade, mas acredito que ainda há resquícios daquele pensamento de que a somente a mulher – nesse caso, a esposa – é uma pessoa maçante e ranzinza, sendo a fonte de todos os problemas.

Agora, vou dizer o que eu estou pensando: por que a Fiat não fez o contrário? Eles bem que podiam ter colocado uma mulher dirigindo com um marido super chato ao lado dela. Afinal, ser desagradável não é algo exclusivo das mulheres, certo? Seria um comercial bem inovador, sem dúvida.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"Os seus serviços não são mais necessários."



Hoje, volto a citar o filme Amor sem Escalas para falar de algo que, inevitavelmente, todos, em algum momento, enfrentarão. Tão certo como a morte e os impostos, o cartão vermelho em relacionamentos é algo que pode pegar muita gente desprevenida. A frase “your position is no longer available” (ao pé da letra, seria algo como “o seu emprego não está mais disponível”, mas, na verdade, a ideia é “os seus serviços não são mais necessários”) – dita pelo personagem de George Clooney, Ryan Bingham, às pessoas que estava despedindo – é bastante emblemática. As reações dos personagens que ouviam uma notícia dessas são bastante semelhantes às de quem recebe o tão famoso “pé na bunda”.
Variações de frases como “o que posso fazer para melhorar?”, “isso não é possível, dediquei anos de minha vida a esta empresa” ou ”vocês estão cometendo um grande erro” eram ditas por todos que estavam sendo dispensados de seu cargo. Declarações mais ou menos parecidas são feitas por quem está sendo dispensado em um relacionamento. Assim como é difícil ter que despedir um funcionário, também não é das tarefas mais fáceis informar a uma pessoa que a presença dela não é mais essencial. A “beleza” da coisa toda reside no fato de que, um dia, você pode estar despedindo alguém da função de namorada(o) e, depois, num belo dia, a(o) despedida(o) pode ser você.
 Bem, por já ter vivido os dois lados da história, posso dizer que foi muito mais doloroso ter de ouvir que “os meus serviços não eram mais necessários” do que dizer isso a alguém. É como se a casa caísse. A desproporção no que sentimos quando encaramos cada um desses dois papéis é realmente gritante, sem dúvida alguma. Rejeição gera desorientação, pois é muito difícil ficarmos 100% independentes em um relacionamento. A intimidade construída pelos laços afetivos deixa os referenciais sobre quem realmente somos meio distorcidos. Pode ser que isso ocorra porque nos mesclamos a outra pessoa através das famosas concessões. Admito que, muitas vezes, eu não gostava de deixar de assistir a algum programa “de mulherzinha” para assistir a um filme de que o meu ex gostava. Mas, então, eu pensava: “ah, tudo bem, é só por hoje, não custa nada...”. Porém, o tempo vai passando, a convivência vai aumentando e com ela as concessões vão se multiplicando. Incessantemente.
Enfim, são feitas tantas concessões que acabamos por nos distanciar de quem éramos quando o relacionamento iniciou. No meu caso, acredito que chegou um ponto no qual eu tenha ficado com medo de voltar a ser quem eu era de verdade por achar que a outra pessoa não se interessaria mais por mim. Tenho a sensação de que acabamos criando um personagem para agradar à pessoa que está ao nosso lado, por acharmos erroneamente que a conhecemos de verdade e, assim, achamos que sabemos o que ela quer. Além disso, acreditamos que essa pessoa sempre olhará para o futuro na mesma direção que a nossa, o que gera a criação de grandes expectativas sobre os rumos que a relação vai tomar (já fiz inclusive um post sobre o perigo das altas expectativas). Quando tudo isso é tirado de nós, é como se perdêssemos o caminho de volta para casa. Muitos questionamentos rondam a nossa mente, principalmente a pergunta “quem sou eu agora?”. Confesso que, nos primeiros tempos de readaptação à minha nova vida, eu me sentia meio manca...

Porém, se há desproporção no que sentimos quando terminamos ou somos terminados por alguém, também existe desproporção no sentido de que, quando somos terminados, ocorrem muito mais mudanças, principalmente de conceitos. A fim de conseguirmos seguir em frente, somos obrigados a enxergar o mundo de outra forma e a não nos negligenciarmos, seja deixando de fazer o que realmente temos vontade de fazer em um momento banal, seja deixando sonhos de lado somente para termos alguém ao nosso lado. Admiro muito quem consegue equilibrar de verdade o que deseja para si com as necessidades do outro. Acho que esse é o caminho para relacionamentos mais verdadeiros e espero chegar lá um dia.
No filme Amor sem Escalas, Ryan dizia aos demitidos que grandes impérios foram construídos depois que as pessoas passavam por situações como aquelas. Logo, é reconfortante saber que, nessas circunstâncias, podemos encontrar o elemento que faltava para impulsionar a conquista de algo que, por medo ou por comodismo, não era mais uma prioridade em nossas vidas. No fim das contas, fico feliz por ter conseguido resgatar a minha essência e, o melhor, por ter conseguido encontrar o caminho para aprender com os meus erros. Afinal, em matéria de relacionamentos, ambas as partes erram e acertam. O meu desafio, e acho que o de todos, é saber até onde podemos ir no terreno das concessões, para que não fiquemos desnorteados caso a história termine. Devo confessar que, de certa forma, sou grata por ter ouvido que “os meus serviços não eram mais necessários”, pois isso fez de mim uma pessoa melhor e mais solidária com todos. Além do mais, saber que eles poderão ser necessários a outra pessoa é muito animador...


Este texto também foi publicado no blog Corporativismo Feminino: 
www.corporativismofeminino.com/2010/03/os-seus-servicos-nao-sao-mais.html

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Vida: sem escalas nem conexões

Neste mês de fevereiro, completo um ano de trabalho no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. Minha função ali é fazer registros de manifestações dos problemas enfrentados por passageiros com as empresas aéreas. Já adianto que o propósito deste post não é detalhar o que faço, mas sim falar um pouco sobre o aeroporto, um lugar que envolve tantas esperanças por parte de quem chega e de quem parte. O fato de ficar parada em terra, apenas observando quem passa por ali, me dá outra perspectiva do que esse lugar representa: não é apenas o movimento que aparece, pois uma hora, inevitavelmente, parar se faz necessário. O filme Amor sem escalas (Up in the Air, 2009, EUA, direção e roteiro de Jason Reitman) aborda essa questão.



A história é sobre um executivo, Ryan Bingham, vivido pelo excelente George Clooney, que viaja de avião pelos Estados Unidos quase todos os dias do ano a fim de demitir funcionários de outras empresas. Logo no início do filme, vemos um homem decidido, seguro, que sabe muito bem o que quer da vida. Ir de um lugar ao outro é o seu combustível, é o que dá empolgação a ele. Além disso, um dos objetivos do personagem é acumular o maior número possível de milhas aéreas. Detalhe: só por prazer, sem que haja um objetivo maior para tal.

Não quero estragar o filme para aqueles que ainda não o assistiram. Por isso, comento apenas duas cenas muito parecidas, que mostram com precisão o que Ryan sente quando precisa ficar em terra, após terminar uma bateria de demissões. Vemos o desânimo estampado em seu rosto. É como se ele não enxergasse propósito em estar ali no seu apartamento quase deserto. Eu me identifiquei muito com esse simbolismo, pois é mais ou menos isso que sinto quando finalizo alguma etapa de minha vida para a qual eu estava me preparando muito. Quando o evento esperado já passou, toma conta de mim uma desorientação, uma sensação de não saber o que fazer. Porém, esse “buraco” desaparece quando parto para um novo projeto. Aí, as coisas mudam. Voltam o entusiasmo e a alegria de seguir adiante, o que ficava evidente com o personagem de George Clooney quando retornava ao avião.

Acredito que todos nós passamos por isso. É algo muito semelhante a estarmos com uma viagem marcada para um lugar muito especial. Assim, o dia em que ela vai acontecer de fato acaba virando um grande acontecimento. No entanto, tenho a sensação de que o envolvimento com os preparativos é, em alguns casos, mais interessante do que chegar efetivamente ao local desejado. Ou, como muitos já disseram: o barato está na própria viagem, e não em chegar onde se quer.

Talvez seja esse o motivo que faz do aeroporto um lugar de tamanha contemplação para nós e para Ryan Bingham: ele representa o caminho a ser trilhado, o novo, o diferente, a mudança. Será que o durante da viagem, não importa qual o tipo, é melhor do que viver o propósito desejado? Às vezes, fazemos apenas uma escala, uma parada estratégica em algum lugar para, em seguida, continuarmos naquela aeronave rumo ao destino final. Já em outras circunstâncias, temos que pegar uma conexão em determinado aeroporto da vida e partir para outro rumo em outra aeronave. Bem, talvez não importe muito como a viagem ocorra. Pode ser que o essencial mesmo seja nunca perdermos a curiosidade em saber o que nos espera, estejamos em movimento ou parados. Resta apenas não nos assustarmos com as turbulências no caminho (ou com os terremotos em terra).
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