domingo, 21 de novembro de 2010

A morte que vive em nós


No último dia 29 de outubro, fez cinco anos que o meu pai faleceu. Ele era uma daquelas pessoas doces, que todos gostam de ter por perto. Torcia muito por mim, amparava-me e sentia orgulho em ser meu pai, de acordo com as palavras dele ditas a mim em muitas ocasiões. Três dias depois, faleceu a mãe de uma amigona do coração. Esse triste evento abalou toda a família dela e a mim também. É triste ver alguém que era tão guerreira e apaixonada por tudo o que fazia ir embora. Por último, três dias depois (sim, isso mesmo), uma tia-avó minha, que eu acabara de visitar, faleceu também. Ela teve um papel essencial na minha alfabetização, pois era professora e me estimulava bastante quando eu era bem pequena, antes de entrar na escola. É, o começo de novembro foi difícil para mim, afinal, lidar com a morte abala qualquer um.

Pois bem, esse é o aspecto mais evidente da morte. O que acontece o tempo todo e que por diversas vezes não enxergamos é aquela que está presente em tudo o que nos cerca e, principalmente, dentro nós. Tem algo que acho bem curioso: ficar sem ir a uma cidade por um bom tempo. Basta visitar novamente esse lugar e verificar que a paisagem sofreu alterações. É muito comum que certos estabelecimentos comerciais bem tradicionais já não existam mais, pois deram lugar a outros com finalidades distintas. Assim, o tempo vai passando, as estações vão mudando e, sem nos darmos conta, já não somos mais quem éramos há um ano, que dirá há cinco ou dez anos. Vejam só, a nossa paisagem também se alterou: nossos gostos se modificaram, trocamos de endereço e, quando olhamos para trás, verificamos que toda a nossa vida está diferente. A morte que marca finais de ciclos pode ser bem sutil ou vir acompanhada de acontecimentos marcantes. Pode ser o dia que termina e o semestre de meio de curso que chega ao fim ou o ano que se encerra – gerando muitas expectativas em grande parte das pessoas – e o final do último semestre da faculdade, culminando com uma mudança drástica de vida.

Mudança: esta é a palavra-chave quando se fala em morte. Tudo o que é novo costuma nos desestabilizar. A desestabilização, por sua vez, gera o caos, para que depois tudo vá para o seu devido lugar. No entanto, o simples fato de vislumbrarmos a possibilidade de algum tipo de mudança gera medo em nós. É claro que, quando a mudança é positiva, parece que encaramos tudo com mais boa vontade, mas quando ela nos traz algum tipo de desconforto tendemos a evitá-la (situação que ocorre até mesmo nas ditas mudanças “positivas”, vide o caso clássico do sujeito que ganha na Mega Sena e tem que se refugiar do mundo por medo de ser sequestrado e morto). No instante em que o nosso mundo particular atinge um determinado equilíbrio, tentamos mantê-lo a todo custo e de modo ingênuo, até que tudo começa a desabar. Nessa hora, temos duas escolhas: juntar os pedacinhos ou ficar estagnados. Certamente que tudo leva tempo: o processo de se reerguer após um revés na vida pode demorar e não é linear. Com frequência achamos que já estamos recuperados de um baque para, logo em seguida, verificarmos que ainda falta percorrer bastante chão. O problema é quando nos recusamos a mudar o panorama, ou seja, quando não nos conformamos com determinada mudança-morte.





O lado bom, embora possa demorar a ser percebido, é o espaço que se abre para outras experiências ao deixarmos que certas fases morram. Ganhamos uma oportunidade valiosa para conhecer facetas da nossa própria personalidade que estavam inertes, podemos mudar nossos conceitos, amadurecer e, por que não, fazer as coisas acontecerem, todas aquelas que não passavam de rascunho. Nesse sentido, a perda pode ser libertadora. Logo, não compreendo por que temos a ilusão de que as coisas precisam ser eternas e por que não aceitamos que a finitude possa vir para o melhor.

Sim, é triste ver planos sendo desfeitos e, sim, dói ver entes queridos partindo, tanto os que literalmente morrem quanto aqueles que morrem em vida (e, nesse caso, temos que aprender a lidar com os seus fantasmas). No fim das contas, acho que o grande desafio em relação a qualquer tipo de morte é suportar a ausência daquilo ou daquele(a) que não mais está conosco. É aí que entra em cena o tempo, curando as feridas e nos ensinando não a esquecer, mas sim a superar e a transformar a dor em serenidade. Superar e transformar: passos essenciais para enfrentar um caminho repleto de mortes chamado vida.

2 comentários:

  1. Ana querida,

    Esse teu texto é uma das melhores reflexões sobre perdas que eu li em toda a minha vida. Tenho a pretensão de achar que sei lidar melhor do que a maioria das pessoas com algumas questões que se apresentam na vida. Até tenho a pretensão, às vezes, de dar conselhos ou quem sabe escrever sobre essas questões. Mas confesso que uma das maiores falhas da minha personalidade é não ter uma boa tolerância às mudanças. A forma com que tu relacionas perdas traumáticas com uma (por que não dizer?) simples forma de saber lidar com o eterno mutável é algo verdadeiramente consolador. Algo que, imagino, monges tibetanos e orientais seguidores de Buda tentam explicar a nós, pobres mortais, mas dificilmente conseguem com tanta clareza e verdade.

    Queria te dizer que hoje, coincidentemente (na verdade coincidências não existem), eu estava muito triste porque estou perdendo um grande amigo que está morrendo na CTI do Hospital de Clínicas. Fui dar uma olhada no teu blog sem ter ideia dos assuntos propostos. E eis que me deparo com esse teu maravilhoso texto. O curioso é que, antes de ler isso, eu estava refletindo justamente sobre as mudanças que ocorreram na minha vida e deste meu amigo até ele ter ficado doente. Pior do que lidar com a tristeza da morte iminente foi perceber o quanto eu havia mudado desde que conheci este meu amigo e o que essa perda representa nos dias de hoje pra mim. Mas agora, lendo teu texto, eu percebo que o que mais temia nessa minha história era justamente o que faz mover nossas vidas. Que venham as mudanças, as novas reflexões e os novos caminhos.

    Ana, parabéns e obrigado pelo teu texto. Estou lembrando agora da viagem que fizemos para São Paulo e o comentário que fiz ao Cassiano, dizendo que eu havia percebido que tu eras uma pessoa muito especial, mais do que se podia perceber num primeiro momento. Fico muito feliz de ter a confirmação do quanto eu estava certo disso.

    Boni

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  2. Você já ouviu falar naquela frase "É preciso morrer para renascer" ou "A morte é nascimento da vida, ou a vida é o morrer da morte"? Pois é exatamente isso que o seu texto explicou e contou para mim quando eu o li. E é exatamente da forma como você descreve: nós nascemos e morremos continuamente. Sem sabermos, a morte está presente em todos nós, diariamente, momentaneamente, em cada instante, e não nos damos por conta. Morremos a cada dia e nascemos para um novo amanhecer; iniciamos planos, namoros, empregos; terminamos casamentos, rescindimos um contrato, trocamos de carro, mudamos o layout da sala, almoçamos em um restaurante novo... Para mim, morte, vida e mudança são palavras com um conceito entrelaçado. A gente, muitas vezes, precisa morrer para renascer e se abrir para o novo. É a lei da vida. Uns morrem para que outros nasçam e novas idéias surjam, para que a vida, automaticamente, oxigene-se! É exatamente como você diz: espaços se abrem para outras experiências quando certas fases morrem.

    Um grande beijo e parabéns, mais uma vez, pelo excelente post!

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